“Ao farol” – uma citação, duas traduções

“Você não acabará essa meia esta noite”, disse ele, apontando para o tricô dela. […]

“Não”, disse ela, estendendo a meia sobre os joelhos, “não a acabarei”.

E depois o quê? Pois sentia que ele ainda estava olhando para ela, mas que seu olhar tinha mudado. Ele queria alguma coisa – queria a coisa que ela sempre achava difícil lhe dar; queria que ela lhe dissesse que o amava. E isso, não, ela não podia fazer. Falar era muito mais fácil para ele do que para ela. Ele conseguia dizer coisas – ela, nunca. Asim, naturalmente, era sempre ele que dizia as coisas e, então, por alguma razão, de repente ele se incomodava com isso e a reprovava. Uma mulher sem coração, dizia dela; nunca lhe dizia que o amava. Mas não era isso – não era isso. Ela simplesmente nunca conseguia dizer o que sentia. Não havia uma migalha no seu casaco? Nada que ela pudesse fazer por ele? Levantando-se, ficou junto à janela, com as meias marrom-avermelhadas nas mãos, um pouco para se afastar dele, um pouco porque agora não se importava de olhar, com ele a observá-la, para o Farol. Mas ela sabia que ele tinha virado a cabeça quando ela se virara; ele a estava observando. Sabia que ele estava pensando: Você está mais bonita do que nunca. E sentia-se, ela própria, muito bonita. Você não me dirá, ao menos uma vez, que me ama? Ele estava pensando nisso, pois estava animado […] e porque era o fim do dia, e por terem discutido sobre a ida ao Farol. Mas ela não conseguia fazê-lo; ela não conseguia dizê-lo. Então, sabendo que ele a estava observando, em vez de dizer alguma coisa, ela se voltou, segurando a meia, e olhou para ele. E enquanto olhava para ele, ela começou a sorrir, pois embora não tivesse dito uma palavra, ele naturalmente sabia que ela o amava. Ele não podia negá-lo. E sorrindo, ela olhou pela janela e disse (pesando, para si: Nada sobre a terra se compara com esta felicidade)…

“Sim, você está certo. Vai estar chuvoso amanhã.” Ela não o dissera, mas ele o sabia. E olhou para ele, sorrindo. Pois ela tinha triunfado mais uma vez.

WOOLF, Virginia. Ao farol. Tradução e notas: Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. p. 108.

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– Você não vai terminar essa meia hoje à noite – disse apontando a meia. […]

– Não – disse ela, estendendo a meia sobre o joelho –, não vou terminar.

E agora? Pois ela sentiu que ele ainda a olhava, mas que seu olhar havia mudado. Ele queria alguma coisa – queria a coisa que ela sempre achava muito difícil de dar; queria que lhe dissesse que o amava. E isso, não, não podia fazer. Para ele, falar era muito mais fácil do que para ela. Ele conseguia dizer coisas – ela nunca. Assim naturalmente era sempre ele que dizia as coisas, e então por alguma razão ficava irritado de repente e a censurava. Chamava-a de mulher insensível; nunca lhe dizia que o amava. Mas não era assim – não era assim. Era só que ela nunca conseguia dizer o que sentia. O casaco dele não estava com farelos? Não havia nada que ela pudesse fazer por ele? Levantando-se, ficou à janela com a meia marrom avermelhada na mão, em parte para se afastar dele, em parte porque não se importava em olhar agora, estando ele a observar, o Farol. Pois ela sabia que ele virara a cabeça quando ela se virou; ele estava a observá-la. Ela sabia o que ele estava pensando. Está mais bonita do que nunca. E ela mesma se sentiu muito bonita. Não vai me dizer pelo menos uma vez que me ama? Ele estava pensando nisso […] por ser o final do dia e por terem brigado por causa da ida até o Farol. Mas ela não conseguia fazê-lo; não conseguia dizê-lo. Então, sabendo que ele a observava, em vez de dizer alguma coisa, virou-se segurando a meia e o olhou. E enquanto o olhava começou a sorrir, pois mesmo não tendo dito uma palavra ele sabia, claro que sabia, que ela o amava. Ele não podia negá-lo. E sorrindo ela olhou pela janela e disse (pensando consigo mesma, Nada na terra é capaz de se igualar a esta felicidade):

“Sim, você tinha razão. Amanhã vai chover.” Ela não disse isso, mas ele sabia. E o olhou sorrindo. Pois ela triunfara outra vez.

WOOLF, Virginia. Ao farol. Tradução: Denise Bottmann. Porto Alegre (RS): L&PM, 2013. p. 124-125.

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Virginia Woolf, em 1935, aos 53 anos,
oito anos após a publicação de Ao farol
(Foto de Man Ray)

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