“Traveco” não é xingamento, Gregorio Duvivier?

Acerca das discussões suscitadas pelo texto “Xingamento”, de Gregorio Duvivier, publicado na Folha de S.Paulo, em 6 de janeiro, registro algumas reflexões.

A identidade do enunciador não desautoriza o conteúdo do seu enunciado. Em princípio, o que deve importar em um debate são os argumentos, a forma de argumentação e a agenda. Todavia, a posição do enunciador ou pode lhe conferir experiência ou conhecimento em relação a um tema ou pode lhe destituir de experiência ou conhecimento, isto é, pode ou lhe conferir ou lhe destituir de autoridade enunciativa. A existência de autoridade enunciativa fundada na experiência ou no conhecimento não impede à crítica a um enunciado. A ausência de conhecimento ou de experiência, por parte do enunciador, tampouco torna um enunciado necessariamente inválido. Na atividade de interpretação, o receptor deve tentar identificar, com base em informações do enunciado em foco ou de outros enunciados relacionados, a presença ou a ausência de conhecimento ou de experiência, bem como a agenda do enunciador. O que é enunciado? De que forma é enunciado? Quem enuncia? De onde enuncia? Para quem enuncia?

Gregorio Duvivier não é uma mulher (cisgênera ou transgênera). Por não ser uma mulher ele não está autorizado a discutir temas como identidade feminina, sexismo, dominação masculina ou feminismo? Um debate público, qualquer debate público, é, por natureza, um debate aberto a todos. Identidade feminina, sexismo, dominação masculina e feminismo são temas públicos de debate. Em um debate público, não é possível, na prática, impedir que determinados sujeitos participem, tampouco é possível obrigar alguém a participar. No entanto, ainda que fosse possível, toda tentativa de definir previamente os sujeitos capacitados a participar de um debate público consistiria em uma modalidade de interdição, de censura. Ademais, quem se dispõe a participar de um debate deve estar preparado para receber possíveis manifestações de discordância e críticas a seus enunciados, as quais podem ser emitidas por qualquer um dos demais participantes. (Evidentemente, ofensas não são manifestações legítimas de discordância e crítica.) Um homem não está desautorizado a discutir temas como identidade feminina, sexismo, dominação masculina ou feminismo pelo fato de ser homem (cisgênero ou transgênero). Toda tentativa prévia de desautorização com base na identidade do enunciador é interdição, censura. O que importa são os argumentos e a forma de argumentação do enunciado, os quais podem, na atividade de interpretação, ser relacionados à posição de enunciação, à experiência, ao conhecimento e à agenda do enunciador. É possível também, às vezes necessário, estabelecer relações entre enunciados, como entre enunciados de um mesmo enunciador.

O conteúdo do texto “Xingamento”, de Gregorio Duvivier, é sexista? Efetivamente, não. Contudo, estou convencido de que o fato de Duvivier ser um homem cisgênero, bem como branco, pertencente à classe alta e famoso, lhe confere uma posição de autoridade enunciativa privilegiada, uma autoridade que não possuem as mulheres (cisgêneras ou transgêneras) quando discorrem sobre as mesmas questões que ele discutiu nesse texto. Para que não haja desentendimentos: a constatação de que Duvivier, por ser um homem cisgênero, está em uma posição de autoridade enunciativa privilegiada não é uma crítica ao texto “Xingamento”, é a constatação de um fato. O primeiro problema não está no texto, portanto – o que não significa que o texto não possa ter problemas. O primeiro problema está nas nossas formas de recepção aos enunciados, que se alteram de acordo com as identidades do enunciador. O problema é que, se o enunciado de Duvivier tivesse sido proferido por uma mulher (cisgênera ou transgênera), muito provavelmente estaria sendo desautorizado com base na identidade feminina de sua enunciadora. Homens e mulheres ocupam espaços assimétricos de enunciação, possuem autoridades enunciativas desiguais. As vozes das mulheres são subalternas às vozes dos homens e as vozes das mulheres transgêneras são subalternas às vozes das mulheres cisgêneras. Um homem, ainda que não possua uma experiência identitária feminina – situação dos homens transgêneros, que foram socializados como mulheres –, ainda que não tenha adquirido nenhum conhecimento sobre identidade feminina, sexismo, dominação masculina e feminismo, é sempre mais autorizado do que uma mulher a discorrer acerca de temas como identidade feminina, sexismo, dominação masculina e feminismo. Três conclusões. (1) O fato de Duvivier ser um comediante famoso, escrevendo para um jornal de circulação nacional reputado como sério e confiável, certamente contribuiu para que seu enunciado recebesse mais atenção e aprovação do que recebem diariamente enunciados de conteúdo semelhante ou idêntico vocalizados por mulheres, feministas ou não-feministas. (2) O fato de Duvivier ser um homem certamente contribuiu para que seu enunciado não recebesse críticas que teria recebido, se tivesse sido enunciado por uma mulher, feminista ou não-feminista. (3) Apropriando o argumento do próprio texto “Xingamento”, podemos também concluir que Duvivier não foi vítima do mesmo número de ofensas que uma mulher teria recebido, caso fosse a enunciadora.

Considero importante que homens participem dos debates sobre identidade feminina, sexismo, dominação masculina e feminismo, denunciando e condenando todas as formas de discriminação, opressão e exclusão praticadas contra as mulheres cisgêneras e transgêneras. Todavia, um homem que se disponha a participar de debates feministas e a defender os direitos das mulheres deve estar consciente de que ele não é e jamais será um sujeito do feminismo. O sujeito do feminismo são as mulheres. Como todo sujeito de movimentos sociais, o sujeito do feminismo é problemático. Quem são as mulheres? O que é uma mulher? Quem é mulher? Não existe uma identidade feminina homogênea e estável, fundada na natureza biológica, transcultural e transtemporal. No entanto, conquanto o sujeito do feminismo possa ser problemático, é evidente que os homens não são seu sujeito. Portanto, um homem que participe de debates feministas e defenda os direitos das mulheres precisa adotar uma posição de abertura em relação ao outro, estando sempre disposto, antes de tudo, a ouvir as mulheres. Não está obrigado a concordar, pois ninguém está obrigado a concordar com nada, mas deve, ao menos, estar disposto a ouvir, sempre.

Retornemos a “Xingamento”.

Um problema do texto, embora pudesse não ser uma intenção do seu autor, é o fato de que pode conduzir a uma conclusão equivocada, segundo a qual o sexismo e a dominação masculina são apenas um problema de linguagem. É necessário criticar nossa linguagem, a qual, sexista, estrutura nossas formas de pensamento. Contudo, não é suficiente. O sexismo e a dominação masculina não são problemas a serem enfrentados tão-somente na esfera lingüística. Esse é o equívoco da correção política, a qual pressupõe que, ao transformarmos a linguagem, transformaremos, consequentemente, todo o mundo social. Ou melhor, um não-equívoco, porque o projeto da correção política é uma transformação alienante e conservadora da linguagem, que provoque a falsa impressão de que a transformação da linguagem promoveu uma efetiva transformação do mundo social.

Aproximemos “Xingamento” de outros enunciados. Gregório Duvivier é integrante da Porta dos Fundos, uma produtora de sucesso de filmes humorísticos de curta-metragem, criada em agosto de 2012. Pelo menos três filmes da Porta dos Fundos, Traveco da firma, Casal normal e Adão, foram condenados como transfóbicos por ativistas glbt’s, particularmente por ativistas de identidade transgênera. Dos três vídeos, vi o primeiro e o segundo. Conquanto considere que tenha realizado filmes interessantes, engraçados ou críticos, com o decorrer do tempo perdi interesse pela Porta dos Fundos, devido ao fato de continuar realizando obras que reproduzem representações discriminatórias e ofensivas a grupos minoritários, como homens e mulheres transgêneros – motivo pelo qual não vi o vídeo Adão. Meu desinteresse decorreu também de, salvo engano, nenhum dos membros da produtora jamais ter se pronunciado publicamente em relação às críticas. Os integrantes da Porta dos Fundos podem não reagir agressivamente às críticas a seus trabalhos, como Rafael Bastos e Danilo Gentili – uma postura que decerto merece ser reconhecida, neste tempos. Todavia, o silêncio também é uma forma de posicionamento. Ainda que não estivesse diretamente envolvido na produção de nenhum dos três filmes denunciados como transfóbicos, a circunstância de Duvivier ser membro da produtora seria suficiente para não isentá-lo de algum grau de responsabilidade. No entanto, não é caso. Ele e Ian SBF são os roteiristas do vídeo Traveco da firma. Entrevistado em uma reportagem do jornal O Dia“Livro ‘Porta dos Fundos’ reúne 37 roteiros dos esquetes da web” –, ele assim explicou sua inspiração para a criação do filme e justificou sua ‘relevância’: “Toda vez que eu me deparo com um [sic] travesti se prostituindo, me pergunto se não é algum amigo passando dificuldades. Este vídeo está aí para lembrar que todos nós estamos muito próximos de rodar a bolsinha”.

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Imagem.

Sobre Fabiano Camilo

“[…] o eu deste instante preciso é fundamentalmente diferente do que era um segundo antes, algumas vezes o contrário, mas sem dúvida, sempre, outro.” (José Saramago, “Manual de pintura e caligrafia”, 1977.)

  1. Gabriela Alves

    O Gregório pode participar do Porta dos Fundos, mas se reparar nos créditos dos vídeos do canal, tem os roteiristas, atores, diretores etc. Duvivier não tem participação nos vídeos transfóbicos do Porta dos Fundos, e os vídeos que ele é roteirista normalmente tem uma mensagem política ótima. É possível ser comediante e politicamente correto.

  2. Ramiro

    Já vi os membros da PF se pronunciarem no mesmo sentido que Gentilli e outros no sentido de o humor não ter limites, “patrulha do politicamente correto”, etc. Perdeu o encanto. Não adianta fazer um vídeo crítico a Feliciano, se no seguinte joga contra a luta LGBT. Então meio que prova que não havia crítica nos demais e nada de genial neles… era apenas tentativa de ser engraçado a qq custo. Esvazia aquilo que pensávamos ser elogiável. Sobre o texto do Duduvier, aí discordo, ou melhor, acredito que o Gregorio concordaria com vc… ele, na posição de homem branco da classe alta não será xingado de muitos nomes. Mas ele antevê isso no texto, o texto É sobre isso. Algumas condutas do pessoal do PF merecem repúdio, mas o texto em questão do Duduvier, a meu ver, é preciso em cada vírgula.

  3. Vc até que tentou, Camilo. Mas seu texto foi perdendo força… perdendo… perdend… perden… perd… per… pe… p… …

  4. hermes.shimizu

    Aff, alguém me devolve o tempo q eu perdi lendo isso?

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  8. Jéssica

    Olha, o texto ficou realmente muito ruim de ler.

  9. Judith Aoki

    Detesto pessoas que são prolixas, quando o queria dizer poderia ser resumido e ter ficado muito mais acessível a todos. Conheço uma pessoa assim…quer desviar a atenção sobre as suas deficiências e fragilidades, então toca a dar voltas e voltas, passando para outros temas, com o intuito de dar a impressão de que sabe muito, mas na verdade não sabe de nada! Essa pessoa só se dá mau na vida! Pois não consegue se comunicar com outro ser humano de forma simples e direta. Gregório Duvivier consegue isto! Por isto o despeito e inveja que suscitou escrever tanta baboseira que não leva a nada! Acaso está defendendo alguma tese para uma banca de julgamento?? Se não, então…cale-se!

  10. Jefe

    O que importa é que ele ao menos usa da posição de “homem branco famoso” para tentar chegar no cerne do assunto, o preconceito enraizado. Faz isso com humor e de forma simples, porque se fosse como esse texto acima, quase ninguém iria parar para ler… Olha ao redor cara, as pessoas infelizmente mal terminam o ensino fundamental, se for para escrever firula em texto ninguém quase vai conseguir ler. Detesto gente que quer se achar grandes coisa analisando de uma forma cheia de “frufru” o que os outros dizem para poder se sentir mais ou melhor ao torcer e distorcer o assunto, conheço uns que acham bonito isso…

    Vai alfabetizar alguém cara, a sociedade ganha muito mais! Porque esse texto foi perda de tempo =P

  11. Você falhou em mostrar sua opinião, pois seu texto é chato, repetitivo e desnecessariamente longo. O Gregório foi rápido, sucinto e escreveu um texto muito mais interessante que o seu, independente da opinião de cada um.

    Minhas sinceras desculpas pelo que falarei a seguir. Eu trabalho com textos, e o seu seria um perfeito exemplo de “como não escrever um texto”. Não quero, de maneira alguma, te atacar como pessoa, mas sim, de maneira um tanto quanto dura, admito, mostrar que através de um texto mais fluido e menos repetitivo, você conseguiria atingir mais pessoas com sua opinião.

    Veja, por exemplo, o tamanho dos blocos dos parágrafos que você escreveu. Isso realmente torna a leitura muito cansativa, ainda mais se estamos falando de um texto para a internet.

    Bom, espero, de verdade, que não tenha se ofendido com minha crítica ao seu texto (e não a sua opinião).

    Abraço

  12. edgar

    Ótima reflexão. Teoria da enunciação é sim um assunto denso, e fica ainda mais denso quando aplicada à fenômenos sociais. Gostei do ponto em que toca na lacuna que existe entre a língua e o pensamento/posicionamento. Usar-se de desencontros línguisticos é humoristicamente efetivo, embora politicamente ingênuo.

  13. Fernando Antunes Maciel

    Nú! Texto ruim demais…!! Por mais que eu entenda seu ponto de vista, a sensação foi de muito “mimimi”, e que você é chato pra carááááiiiii!! Cuidado!

  14. Fábio

    Fui lendo descompromissadamente o texto. E por isso, não sei se o li inteiro ou se li c/ a devida atenção.
    Mas concordo que o uso do termo “traveco” é PEJORATIVO e NÃO PODE SER USADO, se o vídeo tem a intenção de não desvalorizar a dignidade de minorias transexuais e travestidos [não sei se estou escrevendo da forma correta. Desculpe-me se cometo algum erro na forma de redigir].
    Não entendo bem do assunto. Sou leigo em julgar com precisão se uma trabalho artístico tem transfobia. Mas de fato não gostei do vídeo Traveco da Firma. Acho que foi o roteiro infeliz ou [inconscientemente] discriminatório [ou o mais discriminatório] dos três vídeos. A começar por usar o termo pejorativo “traveco”. E o roteiro/história, por mais que tente ser hilário/a, é baseado/a numa ridicularização da situação da travesti que precisa [ou talvez por opção, pois cada um sabe da própria motivação, mas que deve ser algo bem raro] se prostituir p/ sobreviver. Já o vídeo Casal Normal não me parece que aja algo de transfobia. Pessoas complicadas, difíceis de lidar, casais imaturos existem em qualquer condição sexual. Parece-me que apenas o roteiro temperou as dificuldades de relacionamento afetivo de um casal com a questão de transgênero p/ os dois membros do casal. Até aí não vi nada demais, o que ficou engraçado a dificuldade de entendimento relacional do terapeuta de casal p/ lidar com a situação. Não me parece que aja discriminação nesse vídeo.
    A história do vídeo do Adão não achei que ridicularizasse a travesti ou transexual [sei que não são a mesma condição sexual, mas o vídeo não parece diferenciar um do outro, pelo menos eu não consegui achar no vídeo o que identificasse qual é a condição sexual]. Mas novamente o uso do termo “traveco” é negativo p/ a travesti ou a transexual e não poderia ser usado. O termo é um sinal de transfobia, mesmo que a história, o roteiro, não seja discriminatória/o.
    Bem, essa é minha opinião sobre esses vídeos.
    Abraços.

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